Um jeito de contar histórias - Alguns elementos de psicologia



Conhecer a história do cinema tem suas vantagens e desvantagens, que, às vezes, são as mesmas. Ao percorrer alguns filmes essenciais da produção cinematográfica, nos deparamos com os momentos de inauguração de ideias que perduraram pela sua atratividade e funcionalidade. Isso é ao mesmo tempo uma vantagem e uma desvantagem - a vantagem é estar um passo à frente de construções narrativas que, para estes expectadores, não são nem um pouco originais e a desvantagem é que o elemento da surpresa é substituído pelo da obviedade.

Todos os apaixonados por cinema e por literatura conhecem a “Saga do Herói”. Trata-se de um formato de narrar uma história que repete os mesmos elementos por serem seguros e eficazes. A maioria das aventuras possui um herói, um vilão, um momento de estranhamento (quando o herói e seus amigos se adequam a situação nova), um desenrolar (no qual o herói aprende seu verdadeiro potencial), um clímax (quando os problemas chegam ao auge e são resolvidos) e um encerramento (quando o herói retorna a sua vida pacata ou ao menos a paz é restaurada). Mas porque isso é tão efetivo?

Responder a essa questão não é algo tão simples e exige um certo conhecimento de nossa psicologia e da forma como lidamos com narrativas. No século XVIII, o filósofo David Hume notou que uma narrativa, para ser considerada agradável, exige que a relação causal entre os fatos narrados não seja tão extensa ou extremamente detalhada ao mesmo tempo em que não pode ser muito abrupta. Uma boa narrativa deve possuir os elementos causais necessários, sem exagero e sem saltos que fujam a nossa percepção mais imediata. Séculos depois, Joseph Campbell constrói a “Saga do Herói” ou “Jornada do Herói”. Também conhecido como Monomito, o antropólogo nota a recorrência dos elementos que mencionei anteriormente em todos os grandes mitos de heróis, da antiguidade a modernidade.

Considerando as contribuições de Campbell e Hume, podemos dizer que os elementos narrativos repetidos à exaustão em filmes e livros são justamente aqueles que agradam nossas expectativas. Possuímos uma tendência psicológica de nos envolver com histórias que sejam contadas de certa forma, certos fatos combinados nos envolvem, o conto de uma árvore que fala possui dois conceitos que conhecemos muito bem: conhecemos árvores e conhecemos a fala. Assim, temos uma conexão poderosa, que envolve nossa inclinações e emoções em um nível profundo. Se considerarmos, porém, uma árvore que fala, que é invisível e que não pode ser tocada já temos elementos demais. O exagero desfavorece nosso interesse, da mesma forma que a simplicidade excessiva também o faz, como numa narrativa sobre uma árvore, comum, sem qualquer característica especial.

Um outro elemento importante é o da identificação com o objeto apresentado. No filme popular “Minha Mãe é uma Peça”, houve uma imediata identificação do brasileiro de classe média com a história escrita pelo ator, diretor e desinteressante Paulo Gustavo. A maioria das pessoas que assistiu ao filme saiu do cinema dizendo: “minha mãe é desse jeito” ou “lá em casa é a mesma coisa”. Mas será que tantas casas no Brasil são de fato “a mesma coisa”? Obviamente, a resposta é não. Ao mesmo tempo em que a resposta é sim. A família do filme repete, em uma sequência cômica, diversas situações que eventualmente vivemos e, ainda que vivamos somente uma das inúmeras situações, nos identificamos rapidamente com a história inteira. Nosso cérebro preenche as lacunas com nossa experiência subjetiva assim que encontramos um elemento com o qual nos identificamos.

Por isso é tão interessante conhecer a história do cinema, através da qual essas armadilhas narrativas começam a parecer óbvias. O preço, por sua vez, é perder a empolgação com muitas das coisas que saem no mercado cinematográfico (mais que no literário). Talvez seja por isso que muitos cinéfilos apreciem tanto os filmes experimentais - neles, o elemento da surpresa é ocasionalmente mitigado ou mesmo eliminado nos primeiros minutos do filme. A escolha é do leitor e do expectador... e a pergunta fica: vale a pena conhecer a história do cinema?

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