Entrevista: Janayna P. Bianchi



Conversamos com a escritora, engenheira de alimentos e humana dessa catiorínea linda, Janayna Bianchi, sobre suas obras e experiências e o que surgiu foi um conjunto muito interessante de informações, em especial para aspirantes a autores e fãs de ficção e fantasia. Vem com a gente!

Janayna é autora de Sombras e Lobo de Rua, uma prévia do que será a Galeria Creta.
Você pode encontrá-la no Facebook, Skoob e Goodreads.

Quais são suas inspirações?

Praticamente tudo é inspiração para novas ideias: pessoas, coisas que acontecem comigo, histórias que me contam, mitologias clássicas, imaginário popular, entretenimento que eu consumo. Mas em termos de referências, eu gosto muito das coisas que Neil Gaiman, Stephen King e Patrick Rothfuss escrevem. A Ursula Le Guin, além de ser uma referência de escritora, também é um modelo pessoal. E também me inspiro muito no Eric Novello, autor nacional que também escreve fantasia urbana e que é incrível – foi lendo as coisas dele que descobri que fantasia ambientada no Brasil pode ser algo encantador. :)

Como/De onde surgiu a ideia primária para o livro?

Eu AMO lobisomens, é a minha figura preferida da mitologia clássica. E há uns anos, li um livro chamado “O Último Lobisomem”, do Glenn Duncan, que me apaixonou pela abordagem moderna e bastante cruel e violenta desse mito. Um dia, resolvi escrever algo sobre lobisomens contemporâneos com essa pegada menos romantizada e achei que a cidade de São Paulo tinha tudo a ver com a ideia. Já tinha um universo de fantasia urbana na cabeça, o universo da Galeria Creta, e comecei a pensar em alguma história que, ao mesmo tempo que fosse fechada, desse um vislumbre da Galeria e do demônio que a gerencia, o Minotauro.

Por que o menino de rua? 

A ficção especulativa, gênero ao qual pertencem a fantasia e a ficção científica, tem esse nome porque as premissas geralmente nascem do famoso “e se?”. Estava no ônibus pensando qual enredo caberia na proposta de lobisomens mais desumanos quando pensei “e se uma pessoa que não conhece o mito do lobisomem fosse contaminada e se transformasse?”. Pensei nisso porque achei que seria a pior coisa que poderia acontecer com alguém: ser transformado em uma besta assassina sem ter a menor ideia do significado disso. Essa primeira pergunta me gerou mais duas: 1) “Como alguém seria contaminado por um lobisomem sem saber?” e 2) “Quem, no mundo globalizado atual, não teria conhecimento do mito do lobisomem?” Pra primeira pergunta, inventei uma licantropia que é sexualmente transmissível, expressa apenas em indivíduos dotados de alguma pré-disposição genética ou mágica, ninguém sabe ao certo. Assim, qualquer pessoa predisposta poderia se tornar lobisomem de um mês pro outro, sem saber, ao ser contaminado silenciosamente – ao contrário das mordidas que transferem a maldição na mitologia clássica, escandalosamente. Pra segunda pergunta precisei pensar um pouco menos: hoje em dia, só não sabe o que é um lobisomem quem não tem contato com a cultura, já que o licantropo é uma figura bem popular. E, infelizmente, cultura é uma das últimas prioridades de quem vive nas ruas. Quando pensei melhor, percebi que usar um menino de rua como protagonista fazia todo o sentido porque eu estaria contando em duas camadas – a real e a metafórica – uma história de miséria, dor, descontrole, culpa, abandono. Uma história de alguém amaldiçoado pelo ímpeto de fazer coisas que não deseja, coisas que o fazem ter que vive nas sombras e na invisibilidade.

Você criou um mundo na sua cabeça para desenvolver a história. Como escritora de fantasia, quais foram suas prioridades para esse mundo?

Os fundamentos da Galeria Creta já existiam na minha cabeça, mas acabei explorando pouco esse lado do meu universo. Preferi explorar melhor, pra essa história, a "minha" mitologia de lobisomem. O legal de criar uma versão sua de um mito ou de algum personagem ou personalidade que já existe é que você pode repensar todos os seus aspectos à vontade, tentando englobar características já conhecidas pra criar referências e identificação. Tudo o que aparece no Lobo de Rua eu fui pensando enquanto escrevia – não preparei nada antes, nenhum arquivo ou enciclopédia. Mas depois usei essa base pra escrever a outra noveleta que tenho online e também para começar a desenvolver os alicerces de um romance sobre o Tito, o que foi incrementando a mitologia. Priorizei as características da maldição do lobisomem e também a história lupina mundial. Confesso que até me empolguei um pouco com isso no Lobo de Rua... Hahaha... Tem informação que está lá só porque achei muito legal criar, não porque era importante pra história (o que é uma falha, admito!)

Como foi o processo de publicação?

Escrevi essa história pra participar de uma coletânea aberta dos membros do Clube de Autores de Fantasia. Os contos não tinham tema nem extensão definidos, então acabei me empolgando e escrevi uma novela. Por um tempo, o texto (um tanto diferente do que é hoje) ficou publicado gratuitamente lá no Widbook. Aí o pessoal começou a ler, curtir, elogiar, e eu resolvi dar uma trabalhada naquela versão do texto para publicar em algum lugar. Contratei uma revisora, um ilustrador e decidi publicar uma versão digital na Amazon KDP, uma plataforma de auto-publicação bem acessível. Pela Amazon, alcancei mais leitores e comecei a receber as primeiras resenhas, que começaram a atrair ainda mais leitores. Aí, estimulada por uma amiga de escrita, a Paola Siviero (que escreveu o Prefácio do livro, inclusive), resolvi fazer uma versão impressa do livro. Cheguei a pensar em fazer um financiamento coletivo, mas o livro é curtinho e a tiragem foi pequena, então decidi fazer por conta. Como sou bastante curiosa, aproveitei a oportunidade pra experimentar e descobrir as etapas da “criação” de um livro: submeti o texto ao registro na Biblioteca Nacional, passei o texto por profissionais de leitura crítica, revisão e copidesque, pedi pro Renato Quirino (que já tinha ilustrado o e-book) fazer uma capa, contratei uma diagramadora, cadastrei um ISBN, escolhi qual seria a formatação do livro e orcei a impressão em várias gráficas. Comecei a vender o livro físico pela internet, através do meu Facebook mesmo. Embalava livro por livro, ia no Correio uma vez por semana e fazia a divulgação sozinha. De maneira quase exponencial, comecei a receber mais e mais resenhas, convites pra entrevistas, pra participação de eventos online e eventos físicos. Achava que Lobo ia continuar independente pra sempre – como é uma noveleta, um formato que é pouco publicado no Brasil, nem cogitei a ideia de mandar pra editoras. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, não é mesmo? Hahaha... No fim, depois de pouco mais de um ano, surgiu no mercado uma nova editora de ficção especulativa chamada Dame Blanche, seguindo o formato convencional de publicação: compra dos direitos autorais e pagamento de royalties (um formato que é bem difícil em editoras de pequeno porte, mas que é o formato mais seguro e justo de publicar). Além disso, a proposta das editoras era publicar todos os formatos de ficção – inclusive ficção curta como contos, novelas e noveletas – e histórias que tivessem algum tipo de representatividade. Foi amor à primeira vista! Submeti Lobo ao pitching da editora e acabamos fechando contrato. Uma nova versão digital do livro sai ainda esse ano e outras novidades virão no futuro. :)

Que conselho você daria aos novos escritores e aos aspirantes?

Eu ainda me sinto muito iniciante – cada dia de estudo me sinto ainda mais, pra falar a verdade. Haha... Mas, com base nessa minha saga da publicação, posso recomendar duas coisas: 1) Procure pares escritores e também leitores críticos. Ter uma visão desapaixonada da sua história é bom para curar, na mesma medida, excesso de autoconfiança e excesso de insegurança. É bom saber que o que você escreveu não é a mais nova promessa da literatura, mas também não é o maior lixo da história. Além disso, pessoas de fora enxergam falhas que costumam passar desapercebidas por nós. Nesse ponto, vale reforçar aqui que aceitar críticas e saber selecionar o que é válido ou não, SEM NUNCA RETRUCAR O LEITOR, é importantíssimo. Esse último ponto é bom pra você, como escritor, e é também ótimo pra sua reputação: não há nada pior do que um escritor arrogante, especialmente um autor independente que depende do carisma e do social pra divulgar sua obra. 2) Estude. Escrever é como pintar ou tocar um instrumento: é uma arte, que exige treino, experimentação, imersão... e técnica. Você pode nascer com uma predisposição pra ser bom, pode ter um dom nato de entender como funciona a mecânica das histórias que você vai consumir massivamente enquanto consome literatura, pode tentar e tentar e tentar e experimentar todo dia... Mas você precisa conhecer as regras pra saber o que seguir e o que transgredir. Precisa conhecer as inúmeras formas de se contar uma história para escolher qual usar com aquela sua ideia maravilhosa. Você precisa, inclusive, sabe quais ideias já foram exploradas pra criar algo novo e original. E esse conhecimento só vem através de muita leitura e de estudo, não tem atalho. É complicado e MUITO demorado escrever um bom livro, e ainda mais demorado publicá-lo. Mas as razões existem e é legal conhecê-las. Sobre isso, eu digo: tome cuidado com atalhos. Saiba o que está sacrificando quando publicar por um caminho encurtado, como os que são oferecidos pelas editoras que cobram custos e serviços do autor. E, independente dos métodos de publicação, procure melhorar. Hoje, no Brasil, temos vários sites, podcasts, newsletters, canais no YouTube, cursos gratuitos ou de baixo custo sobre escrita e criação, ministrados por profissionais experientes da área – então busque esses canais pra afiar o escritor que existe em você (a oferta aumenta se você lê e escreve em inglês). Ufa! Acho que é isso! A melhoria de qualidade do seu material e suas possibilidades de publicação serão, certamente, consequência das atitudes que tomar pra seguir esses dois pontos. :)

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